domingo, 4 de setembro de 2011

Estética e ética



"O que me surpreende é o fato de que, em nossa sociedade, a arte tenha se transformado em algo relacionado apenas a objetos e não a indivíduos ou à vida; que a arte seja algo especializado ou feito por especialistas que são artistas. Entretanto, não poderia a vida de todos se transformar numa obra de arte? Por que deveria uma lâmpada ou uma casa ser um objeto de arte, e não a nossa vida?" (Foucault, 1995a: 261)

Deslocar a arte – entendida como um conjunto aberto e variável de técnicas de construção e criação – do mero âmbito dos objetos para o âmbito da vida e colocar esse conjunto de técnicas nas mãos de cada indivíduo para que ele mesmo produza sua própria vida e gerencie sua própria liberdade é uma aposta que Foucault faz não só a partir das bases de uma moral (a grega) constituída segundo esses critérios, mas desde a reflexão sobre um dos textos importantes de nossa modernidade: o texto de Kant Was ist Aufklärung? Neste pequeno texto, Kant define o Iluminismo como a saída do homem de sua culpável incapacidade (conf. Kant, 1984: 100), como maturidade para tomar e assumir as próprias decisões sem recorrer ao dogma ou à autoridade. Na avaliação de Foucault, a decisão mais importante, e talvez a única de fato crucial, é a que afeta o estilo de vida de cada indivíduo, na qual se vejam implicadas as relações que este mantém consigo mesmo e com os outros. Assumir radicalmente o princípio governante da modernidade significa, a partir desta perspectiva, colocar as condições para que o indivíduo seja artista ou artífice do seu próprio êthos. E se essa modernidade apontada por Kant, nesse ambiente de maturidade, se inaugurou com um trabalho crítico, isto é, com uma reflexão sobre os limites do conhecimento e da ação, o estabelecimento da crítica, na visão de Foucault, consiste em seguir trabalhando e refletindo sobre os limites, mas não com a intenção de legitimar sua condição de estruturas transcendentais, dadas a priori, e conseqüentemente invariáveis, mas com o propósito de mostrar sua historicidade, sua contingência com o objetivo de tornar possível a transformação.


Trecho retirado do texto: Nos rastros de Foucault: Ética e subjetividade.
Wanderson Flor do Nascimento
Professor de Filosofia do Instituto de Ciências Sociais e Humanas do Centro de Ensino Superior do Brasil e Mestrando em Filosofia pela Universidade de Brasília 

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