sábado, 22 de agosto de 2009

O Procrastinador (18/01/2007)
Braulio Tavares

Um cara me contratou para redigir um texto. Era no início do mês, e ele me disse: "Basta entregar no dia 31". Trabalho fácil, que eu faria em menos de uma semana. Passei o mês inteiro me roendo de remorsos por não estar fazendo. Doía o fígado, doía o baço, doía a cabeça. Tomei remédios, li meia dúzia de livros para "entrar no clima", passei dias na Internet sob o pretexto de "estar pesquisando". Na tarde do dia 30, exaurido, cheio de olheiras, e com tremores pelo corpo inteiro, sentei ao teclado e produzi doze laudas de texto que no dia seguinte foram elogiadas pelo contratante, que declarou: "Meu Deus, eu não conseguiria escrever isto nem que passasse um ano tentando!"

O Procrastinador é aquele cara que tem a intenção de fazer o trabalho, está precisando do dinheiro, sabe que tem condições de atender a encomenda, mas uma força cega e inexplicável o bloqueia. O medo de começar faz o Procrastinador inventar tarefas caídas do céu. Tem que consertar o chuveiro, tem que levar o lixo para fora, tem que comprar café que acabou, tem que levar o cachorro pra passear. Como no Paradoxo de Zenão, antes da tarefa principal há sempre uma tarefa secundária a ser cumprida, e antes desta outra, e antes desta mais outra. Até o infinito. Em meu livro O Anjo Exterminador (Rocco), analisei este processo no capítulo "Os infortúnios da vontade".

Piers Steel, professor de psicologia da Universidade de Calgary, fez um levantamento da literatura científica sobre o vício do adiamento, do deixar-para-mais-tarde. Algumas estatísticas são curiosas. Uma firma que prepara declarações de imposto de renda diz que cada cliente perde em média 400 dólares por ano devido a erros nas declarações, feitas às pressas no último dia do prazo. Dois terços dos doentes de glaucoma ficam cegos porque não usam o remédio com regularidade.

Steel concebeu uma equação para descrever o Efeito Procrastinador. Ele usou um conceito econômico chamado "desconto hiperbólico" (hyperbolic discounting), nossa tendência a considerar que pequenos lucros imediatos são melhores do que lucros maiores a longo prazo. Combinou isto com uma teoria motivacional chamada "teoria da expectativa" (expectancy theory). Sua fórmula é esta: Utilidade = E x V / Gama D. "Utilidade" é a desejabilidade geral de conclusão da tarefa. "E" significa expectativa positiva, confiança. "V" é o valor do trabalho, e pode ser um valor positivo ou negativo. "Gama" é o cálculo básico da tendência da pessoa a atrasar seus compromissos. E "D" quer dizer demora (delay), ou quanto tempo vai levar para que surjam as conseqüências positivas ou negativas de fazer ou não fazer o trabalho. Portanto, quando o contratante ligar, é só explicar a ele que um incremento monetário em "V" pode elevar "E" e deflacionar "Gama", para que os dois efeitos combinados provoquem um aumento em "Utilidade". Se a Ciência não adiantar, meu amigo, o jeito é ir no terreiro e mandar bater bombo.



Mais textos do autor: Mundo Fantasmo
Saudade de ouvir chorinho. Saudade de Pedacinhos do céu!


quarta-feira, 5 de agosto de 2009








Depois de dedicar 20 anos de sua carreira à fotografia de paisagens, o americano Robert Buelteman descobriu uma nova maneira de registrar a natureza: utilizar eletricidade para iluminar folhas e flores, em uma técnica que dispensa o uso da câmera e de lentes.

Para obter as 80 imagens que compõem a série Through the Green Fuse ("Através do fusível verde"), o fotógrafo utiliza instrumentos cirúrgicos para posicionar as plantas sobre uma mesa transparente, e em seguida posiciona uma matriz metálica, na qual estão o filme e uma emulsão fotográfica. O conjunto é, então, ligado a uma fonte elétrica.

Em um quarto escuro, ele então aciona a eletricidade de altíssima voltagem, que pode vir de fontes como o tungstênio, o xenônio ou fibras ópticas.

"Esta técnica tem mais semelhanças com a tradicional pintura japonesa a nanquim do que com as atuais formas de fotografia", diz Buelteman. "Cada entrada de luz, assim como cada pincelada na pintura, não foi ensaiada. E uma vez, liberada, não pode ser desfeita."

'Fragilidade da vida'

Em entrevista à BBC Brasil, Buelteman contou que a ideia para esta série surgiu em 1999, depois que ele perdeu quatro familiares vítimas de câncer.

"Sempre tive vontade de encontrar a minha voz para expressar a beleza, o equilíbrio e a harmonia que eu vejo na natureza", afirmou. "Com a perda de meus parentes, me senti mais determinado ainda a expressar a beleza e a fragilidade da vida."

A técnica utilizada pelo americano se inspira no método que ficou conhecido como fotografia Kirlian, ou Kirliangrafia, desenvolvido pelo cientista russo Semyon Kirlian. A técnica também é chamada de bioeletrografia.

"Com a adição de aparelhos de fibra óptica para conseguir um maior controle sobre a exposição de luz sobre a matriz, este trabalho representa também uma nova interpretação de uma forma de arte honrada há tempos", diz Buelteman.

As imagens do fotógrafo estão reunidas no livro Signs of Life ("Sinais da Vida"), lançado nos Estados Unidos.

BBc