sábado, 4 de abril de 2009

O Meio - Luiz Tatit



Assim era no princípio
Metáfora pura
Suspensa no ar
Assim era no princípio
Só bocas abertas
Inda balbuciantes
Querendo cantar

Por isso que sempre no início
A gente não sabe como começar
Começa porque sem começo
Sem esse pedaço não dá pra avançar
Mas fica aquele sentimento
Voltando no tempo faria outro som
Porque depois de um certo ponto
Tirando o começo até que foi bom

Por isso é melhor ter paciência
Pois todo começo começa e vai embora
O problema é saber se já foi
Ou se ainda é começo
Porque tem começo que às vezes demora
Que passa um bom tempo
Inda está no começo
Que passa mais tempo
Inda não está na hora
Tem gente que nunca sai do começo
Mas tem esperança de sair agora

Se todo começo é assim
O melhor começo é o seu fim
Um dia ainda há de chegar
Em que todos irão conquistar
Um meio pra não começar

Agora depois do começo
Já estou me sentindo
Bem mais à vontade
Talvez já esteja no meio
Ou começo do meio
Porque bem no meio
Seria a metade

É bom demais estar no meio
O meio é seguro pra gente cantar
Primeiro, acaba o bloqueio
E a te o que era feio começa a soar
Depois todo aquele receio
Partindo do meio, podia evitar
Até para as crianças nascerem
Nascendo no meio, não iam chorar

Diria, sem muito rodeio
No princípio era o meio
E o meio era bom
Depois é que veio o verbo
Um pouco mais lerdo
Que tornou tudo bem mais difícil
Criou o real, criou o fictício
Criou o natural, criou o artifício
Criou o final, criou o início
O início que agora deu nisso

Mas tudo tomou seu lugar
Depois do começo passar
E cada qual com seu canto
Por certo ainda vai encontrar
Um meio para nos alegrar

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Falando sobre fotografia II

Poucos são os que gostando de fotografia, praticantes ou não, nunca ouviram falar no "momento decisivo". Este conceito, construído por Henri Cartier-Bresson, define o momento em que os elementos presentes numa cena se combinam de modo a tornar aquela fração de tempo a síntese do fato. O fotógrafo atento deve aproveitar este "momento decisivo" para, em registrando-o, traduzir em imagem o acontecimento. Por isso o ato de fotografar não deve nem pode ser uma atividade passiva. O fotógrafo não pode ser uma mera testemunha dos fatos. Ele tem que acompanhar, perceber, antecipar, compreender, contextualizar o que está acontecendo ao seu redor, sob pena de ser simplesmente um ilustrador sem brilho da mensagem de terceiros.

Poucos são os que, também, nunca ouviram esta frase: "Uma fotografia vale por mil palavras". Ela pode ser verdadeira se o autor da fotografia, manejando de modo competente a sintaxe de sua linguagem, passar informações correspondentes às tais "mil palavras". Mas para isso deve, em primeiro lugar, saber o que quer dizer, qual a mensagem a ser transmitida. Para tanto, repito, não pode ser passivo em relação ao mundo e à vida.

Viver não tem nada de passivo. Viver é perceber a realidade e pensá-la, gerando conhecimento, na definição de que "conhecimento é a realidade pensada".

Fotografar é um modo de viver. Exige comprometimento integral e, também, exige integridade (viver de acordo com seus princípios). Ultimamente ando pensando muito nesta palavra: "comprometimento". Estar "comprometido" com o ato de fotografar... Uma das conclusões a que cheguei foi que quando se está comprometido com alguma coisa ou com alguém, deve-se avaliar mais o que você próprio está proporcionando ao objeto do seu comprometimento, do que o que você está recebendo dele. O comprometimento é unilateral, a recíproca é uma conseqüência sobre a qual você não tem controle. Estar comprometido com a vida é o primeiro e fundamental passo para a felicidade, mas não garante a ninguém um desfilar interminável de dias risonhos. Estar comprometido com a fotografia é o primeiro e fundamental passo do fotógrafo para captar e traduzir o espírito do mundo em imagens, mas não garante a ninguém o reconhecimento alheio. Daí a importância da integridade. Viver comprometido com seus princípios, simplesmente porque eles são os seus princípios.

Este texto foi publicado na coluna "Falando de Fotografia", da revista Atelier, n º 90, de março de 2005.

Luiz Ferreira é jornalista, fotógrafo "free-lancer",
criador e editor da revista "Espaço Photo",
colunista da revista "Atelier - Guia de Artes Plásticas",
Vice-Presidente e Diretor de Comunicação da ABAF


http://www.confoto.art.br/artigos03.php

A Miséria Fotográfica

Não meus amigos, não estou falando de nenhum fotógrafo "mão-de-vaca", e nem da situação da fotografia no Brasil. Este título, na verdade, refere-se à atração que grande parte dos fotógrafos, por todo o mundo, e mais ainda por aqui, tem pelo tema social, mais precisamente pela miséria e pelo sofrimento humano.
E é isso que quero discutir

A proposta desta coluna é incentivar, ou reforçar, a idéia do fotógrafo em tempo integral, ou seja, sugiro à todos, amadores ou profissionais, que fotografem todos os dias, o tempo todo, e não só com as câmeras, mas também com o olhar e a mente. E uma de minhas propostas foi a de andar pela cidade, fotografar a realidade, as composições que vão se formando o tempo todo. E nessas composições, numa cidade como a minha, São Paulo, constantemente estão presentes os mendigos, moradores de rua, pessoas doentes, crianças, e todo tipo de gente, infelizmente, em situação miserável.
Mas um fato é que não fotografamos a miséria só porque ela está lá! Fotografamos também porque a procuramos, vamos ao seu encalço, andamos pela rua procurando mendigos pelos cantos.

Outro dia um amigo me mostrou as fotos que fez de um morador de rua, não me lembro bem da história, mas ele conversou com o sujeito, e descobriu uma pessoa inteligente e culta, por detrás daquela aparência suja. As fotos ficaram boas, mas o que ele aprendeu foi ainda melhor.

Imagine a cena, um jovem estudante, no início de seu curso de fotografia, então seu professor manda os alunos para a primeira saída fotográfica, cada um deveria fazer fotos na rua, por conta própria.
E agora? O que ele faz? Ele vai andar ali por perto, e se depara com a bela igreja da Consolação, com seu estilo neo-gótico-semi-barroco. Aquelas abóbodas altas e imponentes na entrada. Ele faz uma foto. Então percebe que há vários mendigos por ali, e ele precisa de algo mais em sua foto. Nada melhor do que o incrível contraste entre a riqueza e a miséria não?

Então ele se aproxima de uma mulher, uma mendiga não muito velha, apesar de que é difícil imaginar sua idade, ele pergunta se ela faria um favor, de ficar em frente à igreja, para ele fazer uma foto, imediatamente ela pergunta "o que é que eu ganho ?". Aparentemente ela já era modelo profissional, então ele negocia e consegue a foto por um passe.

Esse jovem era eu (ainda sou) e essa foi minha primeira foto na rua. Para todos os efeitos eu a considero minha foto n.1.

E porque eu contei essa história toda? Para mostrar o que se passou na minha cabeça. Tirar foto de mendigos foi a primeira coisa que pensei, fazer fotos de miseráveis parece ser natural. Mas porque temos essa atração pelo que mais queremos distância?

Ninguém quer ser mendigo, mas que atire a primeira pedra o fotógrafo que nunca fotografou um!

Isso, a meu ver, é em parte influência da nossa cultura visual. Qual é o fotógrafo iniciante que não admira Sebastião Salgado. Eu adoro também o Newman Sucupira, que faz uma espécie de foto-glamour de pessoas simples do interior. Além disso, estamos acostumados a ver matérias na TV, sobre a miséria, mendigos, etc.

Acho ainda que a fotografia com temática social faz muito sentido no Brasil, devido a nossa situação de pobreza generalizada. Pega bem se preocupar e fazer fotos conscientes. Alguém que tem preocupação com a sociedade, se aprende fotografia, sai fotografando a miséria mesmo.

Sem falar que se andarmos pela cidade, para registrar a realidade, não tem como fugir, eles estão lá ! Mesmo que na maior parte do tempo algumas pessoas consigam ignorá-los, por ser dolorosa sua visão, quando vamos fotografar a cidade, abrimos os olhos e a mente, e nossa sensibilidade de fotógrafos deixa passar mais que o normal, enxergamos coisas belas que nunca havíamos percebido, mas também enxergamos a miséria, bem nos olhos.
Esses dias recebi a "Câmera Viajante". Um projeto muito legal, desenvolvido pelo pessoal da lista Fotobrasil, que é uma câmera, compacta, que vai viajando e passando na mão de vários fotógrafos, e cada um faz sua foto e envia a câmera para o próximo. No final haverá uma exposição com todas as fotos, feitas por pessoas diferentes, em locais e até países diferentes, mas com o mesmo equipamento. Aposto que vai haver muitas fotos de miséria, a minha é uma delas!

Não sou contra fotografar a miséria, pelo contrário, e ainda acho que devemos fotografar e pensar muito mais sobre esse tema.

Então é isso que vou continuar perguntando nessa coluna, se você já fotografou uma "composição da realidade" hoje? Espero que comece logo!

Yuri Bittar
Designer / Fotógrafo / Historiador
http://www.yuribittar.com
http://www.2communication.com

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A História de Lily Braun

Chico Buarque



Como num romance
O homem de meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom

Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose
E até sorri, feliz

E voltou
Me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão foi desde então
Ficando flou

Como no cinema
Me mandava às vezes
Uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu, feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues

Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris

E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turnê

Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz

domingo, 29 de março de 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009



...

Mergulhei no silêncio. Apesar de tanto tempo na profundidade, não me afoguei. Aprendi a respirar debaixo d'água.



Em trânsito


Medo de atravessar a rua. O que tem do outro lado. E se eu torcer o pé. E se o sinal abrir. E se não der tempo. E se eu pisar na poça. A rua é por onde se passa. E se eu passar despercebida. E se o tempo passar. Medo. E se nunca passar.Tanta coisa atravessada. A rua me atravessa e todos passam por mim sem medo. Eu estou do outro lado.

Construção

Já arranquei dentes, veias, sobrancelhas, fios de cabelo branco. Já arranquei pessoas e lembranças. Já arranquei lágrimas. Sempre como um escultor diante de um bloco de rocha, tentando tirar tudo que encobre a figura real perdida lá no meio da massa sólida. Busco minha forma real arrancando aquilo que parece não pertencer, mas me estranho. Parece que a figura verdadeira a que devo dar o nome de “Eu” é justamente a massa disforme. “Eu” é o dente torto, a veia inchada, a sobrancelha em desalinho, o fio que embranquece, a pessoa que não trouxe alegria, a lembrança do fracasso, a dor sufocada. “Eu” é a força com que bato. “Eu” é a escultura abstrata que não quero expor, porque não saberia explicá-la aos espectadores. A limitação de uma forma mais facilmente reconhecível pouparia perguntas e reticências como respostas. Por isso martelo e quebro e lixo e desbasto mas no final do dia guardo os fragmentos e farelos compassivamente e não me relaciono com a meia-forma que desenhei na pedra. “Eu” é mais a poeira do que a rocha. Vejo que é o pó a matéria-prima com a qual quero construir algo.

A Autora: O véu de Maya
Sobra tanta falta - O Teatro Mágico

Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero
Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo

Sei lá,
Se o que me deu foi dado
Sei lá,
Se o que me deu já é meu
Sei lá,
Se o que me deu foi dado ou se é seu

Sei lá... sei lá... sei lá....
Se o que deu é meu...

Vai saber,
Se o que me deu , quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salve
Vai saber,
O que me deu, quem sabe?

Vai saber,
Quem souber me salve...

domingo, 8 de março de 2009

"E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender..."

Alma Nova - Zeca Baleiro


“O homem é um animal racional que sempre perde a calma quando o chamam a agir racionalmente."

Oscar Wilde
No Jardim Botânico...
Adoro esse lugar!!!

sábado, 7 de março de 2009

Al otro lado del río - Jorge Drexler

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

El día le irá pudiendo poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

quarta-feira, 4 de março de 2009

"Precisamos fazer com que o magistério seja mais que um sacerdócio. A pessoa não precisa fazer voto de pobreza para ser professor."

Fernando Haddad, ministro da Educação, na revista Isto É, sobre o novo piso salarial.

domingo, 1 de março de 2009

30.000 Pés - Pato Fu

Acima das nuvens o tempo é sempre bom
E o sol brilha tanto que pode te cegar
Eu quero estar bem longe do chão
Só pra não ver você chorar
Mas o ar é tão puro que foge de mim

Pode acreditar
Eu agora sei voar
E num pé-de-vento
Você vai me ver passar
Pode acreditar

Há tanto oxigênio que chego a me esquecer
De todo esse tempo que estou sem respirar
A turbulência já vai passar
E a terra treme ao nível do mar
Só mesmo aqui a 30.000 pés

Pode acreditar
Eu agora sei voar
E num pé-de-vento
Você vai me ver passar
Pode acreditar